segunda-feira, 2 de abril de 2012

Mais que Perfeito

Careço,

Não careço,
Careço um tanto...

Careço num espaço de entre vírgulas
Num parêntese que tem que se aberto,
e fechado logo após,
mas só depois de preenchido

Talvez careça eu num parêntese que foi aberto
e após a última palavra tudo o que há
são reticências

Mas, acredito, no fundo, que seja como a fala
que ainda que hajam as reticências após a última palavra
contida num parêntese aberto, há, contudo,
o parêntese que fecha a ideia de infinito ou inacabado

Que seja! O provável mesmo
é que eu, entre parêntese que fora aberto e fechado, esteja, e
que enquanto estiver por aqui, estarei.

Mas depois que os meus olhos, parênteses que retém fatos da "breve" vida,
se fecharem para sempre nesse mundo, que passa;
Descobrirei o Infinito que finda toda a carência
e aí, então, não haverá mais parênteses:
Será o tempo mais que perfeito.


Anderson Ignácio.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Abstract

Mais uma vez ela morria

Sem perceber

Fria, opaca e calada ela morria

Quando nada mais esperava

E nem por nada vibrava ela morria

Ela morria de desatenção

E tentativas limitadas

Já havia morrido umas duas dúzias de vezes

E como quem não se dera conta

Como quem não tivera cuidado

Morria, principiando sua terceira dúzia

Talvez morresse tantas vezes

Por achar que morrer não era nada demais

Por entender que entre morrer e viver

a diferença está que naquele estado o horizonte de expectativas inexiste

e que nesse tudo que se vive é expectativa

A coisa em comum, no entanto, entre viver e morrer

É que ambos consistem em espaços de experiências.

Morria, diversas vezes e revivia, não reencarnava-se,

Tornava a viver

Não voltava à vida como quem dela estivesse distante

Mas como quem nela estivesse de forma morta.

Falo-me sobre a esperança,

esta absurda e desentendida de impossibilidades

Dá-se à morte e à vida na mesma intensidade.


Anderson Ignacio.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

M'Exprimer

Ça m'enerve de n'écrire plus rien ici... C'est ne pas que je n'ai pas d'idées, c'est juste qu'il est tellement difficile de trouver la bonne façon de le faire, de trouver du temps, enfin...

De plus, j'ai tellement changé ma façon d'écrire! D'abord la langue. Je n'ai eu l'opportunité d'écrire en langue maternelle depuis longtemps. Après, cette langue chois,i - ou plutôt imposée - elle est si difficile à maîtriser... je ne pense plus de la même maniere d'avant. Non, non... je ne pouvais pas seulement traduire mes pensés: il fallait trouver les moyens de m'exprimer dans une langue autre que la mienne. Et alors, ça change aussi la façon de penser.

Vous ne me croyez pas ? Essayez de dire que vous êtes "chez soi" dans une autre langue...

Ahâ! Voilà ce que je voulais dire... il y a certaines choses impossibles d'exprimer correctement en dehors de votre langue matternelle. Vous allez trouver, bien sur, d'autres expressions, ou d'autres façons de dire la même chose, de transmettre la même idée, mais vous n'allez pas du tout trouver une autre expression parfaitement equivalent à celle là. Et alors, vous avez perdu vos habitudes par rapporte à la langue nouvelle...

Moi, je ne peut plus changer de note quand je parle. Ma nouvelle langue est "plate", elle ne permait pas ce genre de chose, elle n'est pas "musicale"... c'est la merde ! Parfois je discute avec mes parents au telephone et les gens trouvent que je me "dispute" avec eux... les pauvres, il ne savent pas que la beauté de mon idiome est justement d'être proche d'une sorte de chant...

Non, non, non, il ne faut pas avoir peur. C'est la merde, mais bon... il faut accepter les changements... Mais qu'est-ce que c'est difficile d'accepter un tel changement de caractere, n'est-ce pas ?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Cadeia Alimentar


Anna Júlia era uma menina mediana no colégio. Sempre esforçada, participativa, mas nunca um gênio. Bom, mas o que importa não é seu desempenho escolar e sim uma lembrança que ela teve durante a aula de Ciências. A professora era magra, cabelos lisos e os dentes escurecidos pelo tabaco, e enquanto dissertava sobre cadeias e teias alimentares, Aninha se lembrou de uma tarde de verão 2 anos atrás.

Era Janeiro, pico do verão carioca. Os termômetros marcando 39º graus no relógio digital da praça Saens Peña, zona norte. Mesmo ao final do dia, o local estava cheio de pessoas saindo do metrô no pós praia, velhinhos lendo seu jornal e jogando dominó e pombos bem gordos que corriam atrás dos pipoqueiros.

Aninha tinha ido passar o domingo com a avó paterna e depois de uma bela e farta macarronada, com direito a sorvete de chocolate de sobremesa, as duas foram até a cozinha partir pão velho em pequenos pedaços para oferecer aos peixes que viviam em um grande chafariz situado bem no meio da praça.

Anna Júlia chegou perto, observou os peixes e começou a jogar lentamente o pãozinho cortado com tanto esmero. O peixe, ao que tudo indicava, parecia feliz e saltitava nas águas esverdeadas como se agradecesse o pão daquele dia.

Eis que surge uma garça... Agora vamos parar para refletir um pouco leitor... Você já teve a oportunidade de ver este animal de perto? Esquisitíssimo, de uma finura sem igual. Creio que a linha de pipa com cerol deva ser da mesma finura que a pata deste ser. Garganta, bico, patas, tudo fino. Além da bizarrice do ser, vamos levar em consideração ao animal e seu contexto com os centros urbanos... Como aquela ave surgiu no meio da Tijuca? Bom, voltando. A garça iniciou aproximação com a menina, ficando ao seu lado e observando movimentação nas águas. Começou a se movimentar de forma esquisita, apontando o bico pra água e PIMBA, agarrou o peixe ainda vivo no bico e devido a sua estreita garganta era possível ver o animalzinho se debatendo rumo ao estômago. O susto foi tão grande que Júlia agarrou-se nas pernas da avó e chorou copiosamente enquanto a garça liberava suas excretas bem no meio do concreto quente.

Quando Aninha voltou a si, a professora já havia passado o trabalho de casa no quadro:

Faça uma cadeia alimentar:

Moleza... Pão---Peixe---Garça.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Eu abandonei o magistério... ou não!

Para quem não sabe, eu me formei em Letras - Português-Latim - e fui professora de português para estrangeiros no cursinho da mesma universidade onde fiz meu bacharelado e minha licencHatura - a troca do "i" pelo "h" é somente mais uma das minhas irônias. Pouco depois de terminar a primeira faculdade, comecei a segunda, em História da Arte.

Nada disso tem a menor importância agora, pois joguei para o alto todos os diplomas que acumulei ao longo desses 6 anos de vida acadêmica para vir à França escrever com teclado AZERTY e andar de trem suburbano - que leva 55 malditos minutos para chegar ao centro de Paris. E vim também para contribuir na educação de 2 criancinhas fofas de 3 e 6 aninhos. Isso compreende buscar na escola, dar o lanchinho, brincar com eles, levar na pracinha, ajudar no dever de casa, separar as brigas, arrumar os brinquedos que eles esparramam pela casa, limpar os cuzinhos sujos de merda...

Em resumo, vim como jeune fille "Au Pair".

Há quem diga que ser Au Pair é uma outra forma de elevar um ser. Em francês, utiliza-se o termo "elevar" em vez de "educar", no sentido de fazer com que o pequeno ser que você tem em suas mãos "cresça", "eleve-se". É por isso que aqui na França até os 18 anos você é "élève" e só se torna "étudiant" quando vai para a faculdade. Bom, deve ter alguma coisa de interessante em limpar bunda de criança e fazê-las brincar sem se estapear. Deve ter algo de sublime nisso. Só não sei dizer o que é!

Por enquanto, nem mesmo o curso de francês - obrigatoriedade do programa Au Pair aqui na terra do Sarkozy - parece valer a pena. Aliás, as minhas impressões sobre o povo do velho mundo são as mais instáveis possíveis. Tem horas nas quais eu amo estar aqui, tem dias em que odeio. TPM talvez... Sobre o meu atual "trabalho" então, nem se fala!

Um dia eu vou entender a razão de muitas coisas que passam na minha cabeça neste exato instante, como por exemplo, como reagir quando uma criança quer te obrigar a brincar com ela e SÓ COM ELA, deixando o pobre do irmãozinho de lado, e POR QUE eu me sinto mal quando não consigo fazer com que eles se entendam, com que tenham modos. Eles não são meus filhos, oras, porque me preocupar tanto com eles? Ninguém vai chamar a minha atenção se eles fizerem besteiras, ninguém vai me recriminar por não ter conseguido "bien elever" as crianças. Alias, porque pensar na educação e no bem estar deles quando eu poderia estar fazendo coisa muito melhor, como por exemplo, dormir? Eu sou apenas a Au Pair, a babá! Não há a menor necessidade de pensar nas crianças das quais tomo conta no meu "horário livre"...

Bom, não entendo mais nada do que faço, sinto ou escrevo. Talvez seja a minha veia para o magistério voltando a pulsar. Talvez seja instinto feminino. Talvez eu vá sentir falta deles quando for embora...

J'en sais rien!

Por enquanto, vou me contentando em vos escrever esse breve relato da minha vida. Minhas reais ilusões, decepções, sonhos e crenças, bem, isso tudo deixo para mais tarde. Por enquanto é só um breve emaranhado de sentimentos, tão confusos que mal conseguem sair da cabeça em forma de palavras. A única conclusão à qual posso chegar no momento, é que isso de ser Au Pair não tem nada de magistério, mas tem muito de MISTÉRIO!


Por Raquel D. C. Ferrerira

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Pontos Coração

Por vezes me pego pensando

Que insanos seguimos andando

De um grande não sei onde

Pra um efêmero não sei por quê


Seja o que for que façamos

Sendo apenas pra nós

Iremos chegar onde estamos

E ficar cada vez mais sóis


Que o outro nos seja a meta

Seu sorriso e bem estar

E que nada dele queiramos

Se não com ele estar.


Anderson Ignacio

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Apenas

Parto e de tanto partir

Olho seus lábios com certa desconfiança

Tentando ver o que existe na essência.

Eu quisera não ter precisado partir tanto

Eu quisera nunca precisar ter partido,

Quisera eu o lado seu junto ao meu

E nós, sob os lençóis, em concha

Dormindo sem se quer nos dar conta

Que um dia, assim, tanto desejamos estar.


Anderson Ignacio.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Adieu François!

___ Bonjour François,

___ Se você estiverr do outro lado da linha, não atenda, porr favorr! Deixe-me dizer tudo o que preciso enquanto ainda tenho corragem parra fazê-lo... s'il te p l a î t ... Eu sei que você extá no meio da sua expediente, maix...

___ Bem, o fato é que não há maix o que fazerr, não posso mais com issa. Estou aflita demais nessa lugar. Tenho medo dhi sair nas ruas desta cidade e ser assaltada antes dhi chegar na exquina... morro de calor toda vez que deixo nosso apartementchi na Vieirra Souto. É verrdadi, não me chama de frexca! Do que adianta morrar na beirra da prraia se vivo dentrro das grradhis dexte apartamentchi, com medo dhi tudo e de todos? Em Paris a vida erra muito mais simpática, a ambiente era vachement mais agrradável as pessoas erram mais civilizadas comigô... não, eu não aguento maix o Brésil!

___Toda vez que saímox juntox tenho que fazer um exforço enorrme parra entendêrr tudo o que seus amigos dizem nessa língua insuportável. Não, não é a língua deles que é insuportável, é o fato de eu não entender essas... essas... essa langage argotic que elex falam. Não é possível issa, eu já fiz 6 meses de aulas de portuguêx, no curso mais carro do Rio de Janeiro, e ainda não consigo entender o que a minha emprregada me fala para comprrar no supermarché! En plus, eu tenho este accento horrível, o que me faz parrecer ridhícula na frente de todos eles, mesmo meus crianças me corrigem quando eu fala...

___ Eu não aguenta mais! Deixou toda a minha vida social em Paris para viver com você nessa lugar, max eu não aguento mais. Lá eu tinha um trraváio, amigox, famille, uma vida inteirra! Aqui eu não tenho nada, rien du tout. D'ailleurs ainda tenho que ficarr cuidando das crienças o dia inteirro pois as excolas desse país só funcionam uma parte do dia!

___ E ainda por cima, vc quer que eu tenha humor para fazer amor com você nexte calor?! Franchment, você não consegue entender que é enervantche fazer isso com você espirrando todo o seu suor em cima dhi mim? C'est finis pour moi!!! Extou pegando o primeiro avião de volta parra casa. Depoix volto para buscar nossox filhos, quero traze-los de volta à civilizaçao, mas porr enquanto, vou sozinha mêxmo. Preciso de férias dessa vida, vacances de Brésil!
Mandarrei as billetes de avion deles quando eu tiver arrumado uma nounou em Paris.
____ Franchement, c'est fini!

...

___ Marie, Marie...

Tou, tou, tou , tou...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desculpa a expressão

Quero pedir desculpa
pelo que me passa pela cabeça
É que essa fossa
força a reza
E assim com pressa
tento esperar que passe

É o impasse das curvas
que distanciam dois pontos
que podiam ser um

O instante momento
é como sala por onde
passou um vento
tirando tudo do lugar
tudo está agora fora do lugar

Desculpa a fossa
mas é que não há
outra expressão
possível pra dizer
seguir sem você
está sendo
foda.


Anderson Ignacio

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Porque hoje e amanhã começam no mesmo instante

Quando eu levo, eu não levo só a mim.
Eu levo as ideias, os sonhos, o desejo
Eu levo de certo o anseio profundo
de saber um pouco mais
e ser com todos um.

É o desejo de amar que vai me levando
como aquele barco de papel que eu
fiz um dia e soltei num rio.
É o interesse em estar com e saber
como é quê.

O que me faz não desistir é
a certeza de que ainda não chegou
o final das coisas todas.

Ainda vemos em parte
e ninguém sabe quando é
que veremos face a face,
por isso é necessário seguir
olhando pro horizonte lindo que há de vir
sem deixar que o ovo que está na colher caia.

Anderson Ignacio.